Gosto de usar a palavra “gajo/gaijo”. Se pensarem bem, é uma
palavra versátil. Por exemplo: dizer “Olhem-me
este gajo!” pode, consoante o tom, ser uma oferta de porrada ou uma espécie
de bajulação a um conhecido.
Lembro-me da primeira vez que disse
essa palavra à frente da minha mãe: experiência que me marcou e mudou. A
verdade é que já a tinha dito milhões de vezes (desculpa mãe) na escola, com os
amigos e noutros contextos. Estão-me a criticar? Não é o que todos já fizemos:
dizer palavrões ao pé dos amigos para parecer fixe, mostrarmos que temos um
vocabulário “colorido” e sermos aceites socialmente? Ser
criança/pré-adolescente/adolescente não é fácil.
De volta ao episódio com a minha
mãe: tinha cerca de 13 ou 14 anos: que gaiato. Foi na altura em que começou a
moda de se dar “porrada à atmosfera” em ginásios (aquelas modalidades em que se
executam várias sequências de socos e pontapés), como se fosse culpa da
atmosfera o aumento da concentração de Dióxido de Carbono, o que leva ao
aumento da temperatura, provocando um derretimento de calotes polares, e
consequentemente ao aumento do nível do nível médio das águas do mar.
Coitadinha.
Não sei o nome certo desse tipo de
treino, mas quando começou essa moda, a comunicação social fez uma reportagem
sobre a mesma e por acaso, vimo-la ao jantar...
A meio da reportagem eu disse,
naquela atitude de miúdo estúpido e a rir-me: “Está ali um gajo de óculos!”
(esquecendo-me que nessa modalidade ninguém bate em ninguém, portanto não
haveria problema em estar ali o senhor a pontapear o ar com as lunetas na
focinheira). Pensava que tinha tido piada.
Silêncio.
É rompido com o “lado tia
de Cascais” da minha mãe, a criticar-me. Começa uma discussão entre mim, o meu
pai e a minha mãe. O único argumento a que eu recorria era: “Toda a gente diz. Não é assim tão mau. Já
tenho 13 ou 14 anos mãe!”: em vão porque pelos vistos (e sei isso hoje),
ter essa idade não é argumento válido, a não ser em discussões com miúdos mais
novos. Aliás: em qualquer debate com a mãe, sempre que alguém recorre ao
argumento da idade, evidência desespero.
Ela culpava o meu pai: homem de
Trás-os-Montes, portanto um Senhor a sério a nível de calão, que muitas vezes
não se inibia com presença dos filhos para soltar umas “palavras mágicas” (a
gajada de Trás-os-Montes é espetacular).
Apesar da sua indignação sei hoje que
a minha mãe é proprietária do único Dicionário de Calão presente em minha casa!
Se eu soubesse disso na altura…! É que está assinado por ela como quem diz “este é o MEU dicionário de calão, vou
escrever aqui o meu nome para indicar que faz parte da minha propriedade!”.
Mas pensando melhor, se calhar vinha num possível acordo entre os meus pais
quando se conheceram, do género: “Para
uma melhor comunicação entre nós querida, forneço-te este exemplar, que te
ajudará a compreender as palavras que uso.” – dizia, neste caso, o meu pai
à minha mãe. Mas, após uma vasta pesquisa, sei que a assinatura data de 1986 –
como é que sei disso? Ela escreveu a data. Ou seja, anos antes de eles se
conhecerem, o que quer dizer que ela estava interessada em aprender expressões
de calão.
Apesar disso, a minha mãe é a
mulher da casa, portanto está geneticamente e historicamente marcado que deve
ganhar a discussão. O uso dessa palavra ficou deveras condicionado por alguns
anos… O tempo passou e cresci. Ao fazer 18 anos, votar não foi o único aspeto
que mudou na minha vida: ganhei o direito de dizer essa palavra em casa. Não
foi algo com uma cerimónia formal mas sim algo que sabia que tinha mudado e que
já era aceite.
E hoje, face aos acontecimentos que se
passaram na minha vida recentemente, o episódio da perna partida, ao ver a
maneira com que a minha mãe aguentou a dor, posso dizer, com todo o respeito e
carinho:
“A minha mãe é uma gaja rija.”
(vá lá mãe, já tenho 20 anos, já
posso dizer isso!)
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