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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Estudo de caso: palavra “gajo”



Gosto de usar a palavra “gajo/gaijo”. Se pensarem bem, é uma palavra versátil. Por exemplo: dizer “Olhem-me este gajo!” pode, consoante o tom, ser uma oferta de porrada ou uma espécie de bajulação a um conhecido.

Lembro-me da primeira vez que disse essa palavra à frente da minha mãe: experiência que me marcou e mudou. A verdade é que já a tinha dito milhões de vezes (desculpa mãe) na escola, com os amigos e noutros contextos. Estão-me a criticar? Não é o que todos já fizemos: dizer palavrões ao pé dos amigos para parecer fixe, mostrarmos que temos um vocabulário “colorido” e sermos aceites socialmente? Ser criança/pré-adolescente/adolescente não é fácil.

De volta ao episódio com a minha mãe: tinha cerca de 13 ou 14 anos: que gaiato. Foi na altura em que começou a moda de se dar “porrada à atmosfera” em ginásios (aquelas modalidades em que se executam várias sequências de socos e pontapés), como se fosse culpa da atmosfera o aumento da concentração de Dióxido de Carbono, o que leva ao aumento da temperatura, provocando um derretimento de calotes polares, e consequentemente ao aumento do nível do nível médio das águas do mar. Coitadinha.

Não sei o nome certo desse tipo de treino, mas quando começou essa moda, a comunicação social fez uma reportagem sobre a mesma e por acaso, vimo-la ao jantar...

A meio da reportagem eu disse, naquela atitude de miúdo estúpido e a rir-me: “Está ali um gajo de óculos!” (esquecendo-me que nessa modalidade ninguém bate em ninguém, portanto não haveria problema em estar ali o senhor a pontapear o ar com as lunetas na focinheira). Pensava que tinha tido piada. 

Silêncio. 

É rompido com o “lado tia de Cascais” da minha mãe, a criticar-me. Começa uma discussão entre mim, o meu pai e a minha mãe. O único argumento a que eu recorria era: “Toda a gente diz. Não é assim tão mau. Já tenho 13 ou 14 anos mãe!”: em vão porque pelos vistos (e sei isso hoje), ter essa idade não é argumento válido, a não ser em discussões com miúdos mais novos. Aliás: em qualquer debate com a mãe, sempre que alguém recorre ao argumento da idade, evidência desespero.

Ela culpava o meu pai: homem de Trás-os-Montes, portanto um Senhor a sério a nível de calão, que muitas vezes não se inibia com presença dos filhos para soltar umas “palavras mágicas” (a gajada de Trás-os-Montes é espetacular).

Apesar da sua indignação sei hoje que a minha mãe é proprietária do único Dicionário de Calão presente em minha casa! Se eu soubesse disso na altura…! É que está assinado por ela como quem diz “este é o MEU dicionário de calão, vou escrever aqui o meu nome para indicar que faz parte da minha propriedade!”. Mas pensando melhor, se calhar vinha num possível acordo entre os meus pais quando se conheceram, do género: “Para uma melhor comunicação entre nós querida, forneço-te este exemplar, que te ajudará a compreender as palavras que uso.” – dizia, neste caso, o meu pai à minha mãe. Mas, após uma vasta pesquisa, sei que a assinatura data de 1986 – como é que sei disso? Ela escreveu a data. Ou seja, anos antes de eles se conhecerem, o que quer dizer que ela estava interessada em aprender expressões de calão.

Apesar disso, a minha mãe é a mulher da casa, portanto está geneticamente e historicamente marcado que deve ganhar a discussão. O uso dessa palavra ficou deveras condicionado por alguns anos… O tempo passou e cresci. Ao fazer 18 anos, votar não foi o único aspeto que mudou na minha vida: ganhei o direito de dizer essa palavra em casa. Não foi algo com uma cerimónia formal mas sim algo que sabia que tinha mudado e que já era aceite.

E hoje, face aos acontecimentos que se passaram na minha vida recentemente, o episódio da perna partida, ao ver a maneira com que a minha mãe aguentou a dor, posso dizer, com todo o respeito e carinho: 

A minha mãe é uma gaja rija.”


(vá lá mãe, já tenho 20 anos, já posso dizer isso!)
"Dude" - que é como quem diz gajo em Inglês - "The Big Lebowski"

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